
Quando criança o que ela mais gostava era dos clássicos Disney.
Casais apaixonados. Histórias de amor acertivas. E sempre...um final feliz...invariavelmente!
A família saía. Papais para o trabalho, sua irmã mais velha pra escola.
O castelo então era todo dela!
Podia deixar a imaginação fluir.
No café, ainda que sozinha à mesa, via todos os criados com frutas a lhe servir.
No almoço, sentava-se à cabeceira pois visualizava do banquete à sobremesa.
Ao longo do dia, usava sempre seus melhores vestidos.
Seduzir era seu maior instinto.
Maquiava-se e perfumava-se, mesmo que não fosse a lugar algum.
Usava roupa de criança, mas no espelho enxergava seda e shantung.
Antes de deitar-se penteava os cabelos como se fosse ganhar afagos até adormecer.
Usava cálices de vinho, mesmo que ainda bebesse só água.
Desde criança. Veio ao mundo para se apaixonar...
A sorte é que apaixonou-se primeiramente por ela.
Pelo sexo oposto apaixonou-se em seu primeiro dia de aula. Mas nunca confessava.
Sempre teve romances...Em todos os lugares por onde passava.
Com o filho do jardineiro. Tinha romance baseado na princesa e o plebeu.
Quando encontrava o filho do amigo rico de seu pai, acreditava então ser Sabrina.
Pensava que um dia teria seu amor disputado por dois amigos ou dois irmãos.
Nunca nenhum deles saiu de sua imaginação.
Cresceu vendo filmes! Amadureceu ouvindo músicas!
Gostou das histórias de amor bandido.
Teve uma queda por aqueles que desafiavam a lei e a ordem.
Ledo engano. Nem na mais imaginativa de suas histórias, poderia viver uma história de amor sem princípios.
Tentou do alto de seu camarim fazer o papel de vilã.
Infernizou alguns casais. Levou alguns personagens ao delírio.
Mais uma vez, não gostou do que viu.
Percebia que assim, não teria um final feliz. Estava largando o papel principal para ser mera coadjuvante.
Ela lembrara que nasceu para ser protagonista, ainda que no papel de amante.
Sempre ligada à sétima arte, de modo geral a qualquer tipo de arte.
O que a fazia, ver romance em toda e qualquer parte.
Cantou Noel Rosa e Maysa.
Achou chique sofer por amor.
Sorte sua não ter aderido ao cigarro.
Quis encontrar um amor por quem morrer.
Mas ela esquecia, que gostava demais de viver.
Quis o amore hippie.
Livre e desencanado.
Tornou-se amiga e confidente de todos os seus amados.
Não dava mais pra ser amargo.
Aprendeu que o verbo amar poderia ser conjugado.
E foi conjugar.
Mas nunca em momento algum, deixou de imaginar.
Continuava gostando de ficar sozinha em casa e de seus espelhos.
Deles vinham seus melhor diálogos.
Almofadas e pelúcias, eram todos os seus companheiros.
Muitos príncipes vieram fazer parte de suas histórias.
Quase sempre viravam sapos antes de irem embora.
E ela continuava guardando seus lencinhos.
Estava acostumada a chorar quando eles partiam.
Alguns sequer desmanchavam seus laços.
Passavam batido.
Mas ela sempre achou nobre, alguém que por amor chora.
Outros faziam com que ela desejasse largar tudo e todos.
Desafiar o mundo.
Nunca lhe ocorreu.
Ela nunca achava que era amor o bastante.
Continua vendo clássicos Disney.
Mas nota que nem eles são os mesmos.
Não existe mais o romance romântico.
Como o romance de hoje, os clássicos estão cheios de deboche.
Ironia, piada e fantoche.
Ainda assim ela não desiste.
Tenta um Telecine pipoca ou talvez o light.
Ainda chora quando o mocinho vai embora.
Quando eles se entendem ela comemora.
E o dela?
Continua imaginando.
Parou com as vilãs.
Prefere ser mocinha com atitude, que chora pelo amado, mas possui um amante.
Que trabalha fora, mas ainda pretende encontrar a lâmpada de Alladin quando for fiscalizar uma obra.
Pensa que é possível que em uma de suas férias algum Sheike a encontre e a leve embora.
Mas em vários momentos, não raros,ela confessa:
Acorda e relembra.
Talvez nada passe de imaginação.
Adora ver filmes. Mas não gosta de tradução.
No fundo não sabe se gosta mais de romance , suspense ou ação.
Sabe apenas que presta muita atenção em atuação.
Talvez um dia se torne atriz, para acalmar seu coração.
E viver a cada dia, uma nova atração.
Hoje ela pensa com cautela:
Não há como uma mulher de 1,73 calçar sapatos de cristal.
Ainda que o príncipe vá a sua casa tentar calçá-lo, ela gosta mesmo é de andar de pés no chão.
minha Cinderela, pra sempre!
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